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O fascínio da carne fraca

Sergio Pires

25/03/2017 às 16:42h

O fascínio da carne fraca

Nos últimos dias alguns fatos provocaram fraturas na solidez do bloco histórico responsável pelo golpe de estado que afastou Dilma da Presidência e promoveu a assunção de Michel Temer à chefia do governo.

Um deles foi a decisão de Temer de retirar os servidores públicos estaduais e municipais do âmbito da proposta de reforma da previdência. Não que isso não seja um refresco momentâneo a estes profissionais, mas a questão é que a medida abespinhou de vez setores da elite do funcionalismo público da União, profissionais que foram responsáveis diretos pela criminalização a qualquer custo da gestão Dilma, tais como juízes e procuradores federais, técnicos de alto nível da Receita Federal e agentes da Polícia Federal.

Outro fato de importância simbólica, embora envolva um pobre mortal como tantos outros sujeitos a abusos do poder público, foi a condução forçada do blogueiro Eduardo Guimarães, determinada pelo juiz federal Sérgio Moro, que, como ele próprio ficou rapidamente sabendo, pode “quase” tudo, mas não pode tudo!

Nos dois episódios, segmentos constitutivos do arco de alianças que sustentou o golpe cobraram respeito dos agentes que no momento conduzem, ambos ilegitimamente, o rumo do Executivo e do Judiciário. Como é comum em processos dessa natureza, já existem setores que se sentem traídos pelo condutores de ocasião da pira golpista.

Mas o maior evento neste sentido, sem sombra de dúvidas, foi a aparição midiática espetacular, em nada diferente de outras vezes (aplaudidas ad nauseam), da autodenominada Operação Carne Fraca, conduzida, como é o novo costume, de modo triangular, Polícia Federal-Ministério Público – Judiciário.  A operação expôs o óbvio: há corrupção sistêmica, gorda e tentadora na seara do agronegócio.

Desde os tempos coloniais, a oligarquia agropastoril sangra os cofres públicos à luz do dia, obtendo toda espécie de incentivos, subsídios e outros quejandos oficiais; e, na calada da noite, golpeia pelas costas o erário e a cidadania com a prática de tenebrosos ilícitos que atendem pelo nome genérico de corrupção. Para tanto, mantém um contubérnio com parlamentares da bancada ruralista e com marqueteiros e jornalistas da grande mídia, que ajudam na montagem para ela de um personagem de história da carochinha, responsável por “trazer o alimento para a mesa do brasileiro e manter a única parcela aquecida da economia nacional.”

Como num erro de montagem, o público viu por alguns segundos a real face dos beneméritos heróis do campo. Foi só um vislumbre, mas esfacelou muitas relações e algumas convicções. Há algo de podre no reino da Dinamarca, já lembrara o bardo.  

O futuro imediato da nação depende da capacidade das relações entre os diversos setores que compõe a emergente, ou melhor, ressurgente direita brasileira. Para a continuidade do sucesso do golpe é preciso unidade, bem sabem os intelectuais orgânicos do grupo.

Conseguirão eles impor o pragmatismo maquiavélico às diversas espécies de abutre que povoam o butim? Sei não... Para a esperança do povinho, também entre os poderosos a carne é fraca!






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