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Pontes incendiadas

Sergio Pires

01/04/2017 às 13:39h

Pontes incendiadas

 

Pontes incendiadas

   Por Sergio Pires

O povo brasileiro tem fama de cordato, pacífico e tolerante. Os eventos mais importantes de nossa história foram realizados com o mínimo de violência. Assim foi na independência, na proclamação da República. Até nossas “revoluções” ou golpes de estado foram feitos com menos dor coletiva do que os correspondentes em outras nações. Os golpes de 37 e 64 foram sangrentos, mas, infelizmente, as demais ditaduras latino-americanas fizeram pior. Cite-se os casos da Argentina e do Chile, para ficar em exemplos próximos.

Assim, a crônica nacional parece acreditar que no Brasil nada abalará o compromisso popular com a passividade. Não se confia na elite, disposta a qualquer disparate legal ou de força para atingir seus propósitos; mas se deposita na paciência da sociedade civil as chances de um futuro nacional de paz. Ou seja, não é que não se tenha motivo para indignação e para chutar o balde (o saudoso professor Paulo Cézar Tiellet dizia sempre que “não há país mais apropriado para um revolução do que o Brasil”), é que não seria de nossa índole assim fazê-lo.

Contudo, mesmo os filósofos do absoluto sabem que nada é eterno.  Até a paciência do povo brasileiro pode acabar. Quiçá bem mais cedo do que a elite governante pensa. E o dia em que colosso deitado em berço esplêndido se levantar e rugir, faltarão páginas para narrar a carnificina tropical.

É que o povo brasileiro só é pacífico em termos políticos, mas é violento em quase todas as demais facetas da vida. Não é à toa que nossos registros de violência e criminalidade frequentam a ponta de cima de qualquer ranking internacional. Portanto, know-how para a violência nos temos. Há, no entanto, um controle ideológico tão forte da classe dominante (este um exemplo mais acabado da violência cultural e sistêmica que anula o protagonismo social) que dispersa a violência incontida para outros alvos, na maioria da vezes, inclusive, situados no próprio seio popular.

Penso, sonho, trabalho e aposto na construção pacífica de um Brasil desenvolvido. Mas a racionalidade exige que se alerte para o cenário cada vez mais carregado de nossa conjuntura. É hora da razão se levantar e propugnar saídas radicais para a crise, dentro dos marcos do estado democrático de direito.

Quando as frágeis pontes que interligavam a elite e as classes populares do país começam a ser incendiadas é hora de se buscar o heroico remédio das nações doentes: a convocação de assembleia nacional constituinte livre e soberana para a elaboração de um novo pacto para o futuro e aprovação de uma nova Constituição para o Brasil. 

 






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