Publicidade

Assine o HoraHAnuncie no HoraH


Brasil: entre a batina e a toga

Sergio Pires

09/01/2018 às 14:30h

Brasil: entre a batina e a toga

Alexis de Tocqueville disse que somente se pode classificar uma mudança social de revolucionária quando ela afetar a igreja e o judiciário. As maiores revoluções do Ocidente, a Francesa de 1789 e a Russa de 1917, comprovam o acerto do grande pensador liberal, autor dos clássicos Democracia na América e O Antigo Regime e a Revolução.

Em momentos de aceleração da história, nossa atualidade, se consegue perceber o quão essas instituições são responsáveis pela conservação do que é secular na sociedade, de maneira especial pela exclusão pura e simples da maior parte da população do acesso a bens de vida primários (alimentação, habitação, saúde e educação).

A essência do que ocorre no país é a exacerbação da luta de classes, fruto de uma enorme onda reacionária provocada por potentes aparelhos ideológicos de estado e sociedade civil, acionados para esmagar o tímido avanço conquistado pelas camadas oprimidas da população durante os primeiros anos do atual século. Tímido suspiro que esteve relacionado aos governos de Lula e Dilma.

Engana-se (sei que isto soa triste e chocante para a maioria cristã de nossa população) quem busca nas igrejas oportunidade para passos significativos de justiça social, em que pese a existência de setores comprometidos em todas as vertentes religiosas. O caso mais emblemático (por óbvio, pois, segundo o IBGE, 2/3 da população brasileira se declara seguidora de Roma) é o da Igreja Católica. Há uma enraizada parcela do catolicismo brasileiro que defende os interesses populares, mas é absolutamente insuficiente para mudar o conservadorismo da cúpula. Assim, desde a primeira missa no Brasil, a Igreja Católica comporta-se como morcego a se alimentar de almas, sangrando e assoprando ao mesmo tempo o corpo de seus fiéis. 

Nem falar de algumas versões pentecostais que agem de forma tão escorchante em relação à sua clientela que chegam a arrostar a mais clássica usura das instituições bancárias.

Quanto ao judiciário, estava ele espreitando em seus gabinetes aristocráticos, como um exército de reserva pronto para agir em prol da manutenção de nossa estratificação social. Bastou o brado dos primeiros arautos, para ele se dizer presente e passar a operar de forma objetiva e intensa contra qualquer ameaça ao status quo.  Claro que também nesta rubrica teremos as exceções para disfarçar e legitimar o caráter classista da “distribuição da justiça.”

Alguém disse que nunca houve uma revolução ao sul da linha do equador. Mas Darcy Ribeiro morreu jurando que também nunca houve no mundo uma civilização tão portentosa como a do povo brasileiro. Quem sabe não se fará aqui inédita proeza e, afinal, encontrar-se-á função de utilidade popular para a batina e a toga? De suave, poética e eficaz opressão ao colo dos seus trajantes.  






  • ACI LATERAL SECUNDARIAS