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O assassinato de Marielle Franco

Sergio Pires

17/03/2018 às 18:21h

O assassinato de Marielle Franco

Andava relendo algumas coisas referentes à influência do governo norte-americano nos momentos mais importantes do Brasil, com o intuito de aqui relatar algumas impressões, quando aconteceu a execução da vereadora do PSOL no Rio de Janeiro.

Não há como silenciar acerca do episódio. Percebo que a necessidade de se manifestar atinge também os adversários da visão de mundo representada por Marielle Franco, pois não foram poucas as manifestações ocorridas na ágora pós-moderna, as redes sociais da internet, atacando de alguma forma a memória da vítima. Algumas sutis, mas a maioria escancarando o rosto mais medonho do fascismo.

A direita que não necessariamente assassina, mas que justifica os assassinatos, demonstra alerta e preocupação com o fato. Pela primeira vez, desde que a decisão de derrubar Dilma, banir o Lula e extinguir o partido mais influente da esquerda nacional foi tomada, talvez seja a primeira vez o controle não está inteiramente na mão dos golpistas.

Desde Júlio César sabemos que as consequências de fenômenos dessa natureza são imprevisíveis. Pode ser que tudo seja abafado e logo cesse o desconforto inicial hoje generalizado numa fração significativa da população até então alheia ao embate travado no País. Mas há possibilidade real da morte da vereadora carioca se constituir num marco definidor do início de uma nova etapa na nossa luta social e política.

A morte de João Pessoa (1930) e do estudante Edson Luís (1968) demarcaram novas etapas na vida brasileira. No primeiro caso, criando condições para a revolta de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. No segundo, radicalizando o enfrentamento entre ditadura militar e oposição, criando a escura noite do AI-5.

Bem lembrado, os tempos são outros e Marielle Franco não tinha exatamente a estatura de estadista. Mas nossa república talvez seja bem abaixo da dos romanos. O certo é que o assassinato da vereadora Marielle Franco, um símbolo do feminismo consequente contemporâneo, não é algo de somenos como fato sociopolítico.

Aos comprometidos com a democracia cabe interferir no cenário para afastar o espectro da guerra civil. A escalada da violência é sempre uma das hipóteses em casos como este. O radicais estão excitados, em especial as cadelas do fáscio (segundo Brecht, elas estão sempre no cio) pois pressentem cheiro de mais sangue e mais morte.

A direita que não mata mas justifica as mortes sabe que se houver guerra a vitória não é garantida. Para quem está no comando a um custo mínimo de baixas, a exacerbação do conflito é desnecessária e perigosa.

Talvez aqui esteja a razão por que alguns personagens do governo Temer estão no momento de olhar carrancudo e sombrio. De certa forma, eles também choram a morte de Marielle. E com isso o cenário fica mais tétrico, pois, como disse Borges, não há algo mais medonho do que a cena de demônios que choram.






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