Publicidade

topo 6topo 5topo 3


Em nome de Deus

Sergio Pires

15/09/2018 às 20:42h

Em nome de Deus

Um fenômeno de natureza mundial está marcando intensamente o momento político brasileiro, em especial o processo eleitoral em andamento. Trata-se da ostensiva invasão do espaço político-eleitoral pelo discurso religioso.

Isso não é novidade na história, é evidente. Houve um tempo, inclusive, em que a doutrina religiosa ditava as decisões políticas, era o fundamento legitimador das ações governamentais, inclusive da feitura das leis.

Durante toda a antiguidade e o medievo, chegando com muito vigor durante as monarquias absolutas da era moderna, havia uma fusão do estado com a igreja e o direito era caudatário dos dogmas religiosos.

Uma das maiores alterações na tessitura do poder estatal realizadas pelas grandes revoluções do século XVIII (Revolução Francesa e Independência dos EUA, por exemplo) foi a separação completa entre estado e igreja. Para o Iluminismo o poder estatal devia ser coisa dos homens. As repúblicas sul-americanas seguiram paulatinamente tal axioma. O Brasil fez isso com um certo retardo em relação aos demais, eis que somente procedeu a esta cisão formal com o advento da constituição republicana de 1891.

Nem por isso, é óbvio, a religião (no nosso caso, o catolicismo romano) deixou de manter influência no poder laico durante todo o transcurso da vida republicana. Mais, paulatinamente vertentes pentecostais do cristianismo foram ocupando espaços importantes na vida nacional. Na última legislatura, ficou bem claro que os parlamentares pentecostais são capazes de influenciar os rumos do Congresso Nacional.

Numa república democrática todos têm o direito de organizar-se para influenciar, disputar e conquistar o poder de estado. Não há ilegitimidade quando os grupos religiosos disputam os espaços públicos de poder. O único tributo que tem-se de pagar é o reconhecimento de igual direito aos demais, a outros grupos sociais com ou sem matiz religioso.

Portanto, a questão a ser enfrentada atualmente no Brasil no que concerne à questão religiosa (para usar a nomenclatura clássica para o tema), não é quem pode ou não exercer sua opinião – seja religiosa ou não -, mas quem intenciona calar a voz divergente de forma expressa ou velada.

É preciso que se evite a hegemonização da política pelo fundamentalismo religioso, pois este pretende impor sua visão de mundo para os demais negando a multiplicidade de visões que constituem a vida republicana e democrática.

O retrocesso fundamentalista não se enfrenta com retaliação, mas com medidas racionais de convívio e inclusão que possam cotidianamente convencer a maioria do quão prudente é separar as opções religiosas – absolutamente livres – dos interesses da vida social mundana. É preciso retomar o generoso movimento da iluminação racional reafirmando a boa nova de “dar a César o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”.  






  • Security


  • ACI LATERAL SECUNDARIAS