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Ruídos sistêmicos

Sergio Pires

15/09/2018 às 20:44h

Ruídos sistêmicos

 

Há uma teoria contemporânea utilizada nas ciências humanas chamada de teoria dos sistemas. Ela é uma derivação do funcionalismo do americano Talcott Parsons, que, por sua vez, bebeu na vertente da sociologia compreensiva de Max Weber. Foi um biólogo chileno chamado Humberto Maturana (foto ao lado) quem deu os contornos iniciais e fundamentais desse pensamento, na década de 70 do século XX. O alemão Niklas Luhmann a trouxe para o direito e Günther Jakobs a desenvolveu no ramo penal.

Há quem seja apaixonado pela teoria dos sistemas e quem a deteste, mas o certo é que, como qualquer outra pretensão científica séria, ela permite uma leitura coerente do mundo, independentemente de ser ou não irrefutável.

Com as lentes da teoria do sistema se poderia dizer que o sistema político brasileiro inaugurado com a Constituição de 88 apresenta disfunções preocupantes no momento. A lógica inaugurada em 88 apresenta a alternância democrática como fio condutor da regularidade sistêmica da nossa vida institucional.

Houve um estremecimento inicial compreensível, em 1989, quando Collor venceu os demais oponentes: Lula, Brizola, Covas, nesta exata ordem de posição nas outras colocações mais expressivas da disputa. Mas logo o sistema se estabilizou, opondo direita e esquerda, ponteadas pelos partidos mais complexos e flexíveis de cada polo, PSDB e PT. A lógica sistêmica previa um período para cada força.

A primeira grande dificuldade surgiu com o prolongamento do período petista, causado pela eleição e, principalmente, reeleição de Dilma. Neste momento o sistema foi testado ao extremo e se rompeu golpeado por arrivismo e pressa do polo derrotado – candidatura de Aécio. A interferência extraordinária pôs em colapso o curso do sistema, impedindo que ele próprio se regenerasse autopoeticamente. 

Se os derrotados em 2014 tivessem a paciência e a crença na capacidade do sistema, provavelmente ascenderiam o poder em 2018 e o ciclo funcional voltaria à tramitação regular. Mas o impedimento de Dilma se constitui num gesto assistêmico e, em decorrência, antissistêmico. A queda de Dilma cortou o fluxo energético vital do sistema que, como um cronômetro eletrônico, parou de registrar o curso do tempo e voltou ao ponto inicial de marcação. 

Cronômetro zerado, inicia-se nova contagem e não é à toa que a eleição presidencial está tão parecida com a de 1989. Mutatis mutandis, Bolsonaro está para Collor, assim como Haddad está pra Lula, Ciro para Brizola, Alckmin para Covas e, até, Meirelles para Ulisses.

Só não sabemos o resultado dessa primeira etapa do sistema resetado porque (e saio da teoria sistema e me socorro do velho Marx) a história somente se repete como farsa ou tragédia.

Aliás, tudo indica que estamos nessa eleição exatamente tentando se equilibrar no estreito caminho que separa a vala do cômico da do trágico.

 






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